quarta-feira, 2 de maio de 2007

Eu nunca li António Lobo Antunes

Foi depois de ouvir uma entrevista na RTP1, em Setembro do ano passado, que fiquei a conhecê-lo melhor e nessa noite estava capaz de ficar ali a ouvi-lo colada à televisão.
Fiquei com a certeza de ser uma pessoa de uma beleza interior sem limites e passei a ser sua admiradora.

Numa entrevista afirmou: "no fundo, a nossa vida é sempre uma luta contra a depressão e, em relação a mim, escrever é uma forma de fuga ou de equilíbrio… Por outro lado, há a sensação de qualquer coisa que nos foi dada e que temos obrigação de dar às outras pessoas: quando não trabalho sinto-me culpado. Há ainda a sensação do tempo, ou seja, ter na cabeça projectos para 200 anos e saber que não vamos viver 200 anos..." E porque a vida, para mim, é mesmo isto, tinha que mostrar-lhe que estou consigo neste momento menos bom e o quanto fiquei decepcionada com aquilo que a vida nos guarda, especialmente a quem dá tanto de si aos outros.

Como diria uma amiga "são provas..." Se o são ou não, não sei. Mas que a força interior é o que mais conta nestas situações, não duvido. E acima de tudo é preciso que aqueles que nos rodeiam não nos façam sentir uns coitadinhos mas continuem a acreditar em nós.

Como não gosto de falar de doenças ( e muito menos escrever sobre elas) prefiro pensar que o António (permitam-me que o trate assim) está apenas a fazer uma curta pausa no seu trabalho de psiquiatra (sim, que o escritor nunca pára) para aprender e daqui a uns tempos nos trazer novidades. Por mim, continuarei atenta e prometo tornar-me uma humilde e assídua leitora se vencer esse bicharoco que o veio visitar.

Deixo-vos com um excerto delicioso da obra "A ordem natural das coisas" :

ATÉ aos seis anos, Iolanda, não conheci a família da minha mãe nem o odor dos castanheiros que o vento trazia da Buraca, com as ovelhas e os chibos que galgavam a Calçada na direcção do cemitério abandonado, tangidos por um velho de bóina e pelas vozes dos mortos. Ainda hoje, meu amor, estendido na cama à espera do efeito do valium, me sucede como nas tardes de verão em que me deitava, à procura de fresco, num bairro de jazigos destroçados: sinto um ornato de sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas; uma mulher de chapéu plantava couves e nabos nas raízes dos ciprestes; os badalos dos cabritos tilintavam na capela sem imagens, reduzida a três paredes calcinadas e a um pedaço de altar com toalhinha submerso em trepadeiras; e eu observava a noite avançar lápide a lápide, coagulando as bênçãos dos santos em manchas de trevas.

Mas ontem, por exemplo, abraçado ao teu corpo enquanto aguardava que a indulgência do remédio me libertasse dos sobressaltos da memória, veio-me à ideia um crepúsculo antigo, em cinquenta ou em cinquenta e um, com os canteiros do jardim regados de fresco, o Senhor Fernando, em camisola interior, a fazer ginástica à varanda, e um reboliço de gatos à porta da cozinha, comigo empoleirado no muro a farejar as brisas de Monsanto e a escutar os cavalos dos monárquicos vencidos que baixavam a serra (conforme me contou a Dona Anita que era menina nessa altura) a caminho das celas da Penitenciária.

Não entendo por que motivo, querida, nunca te interessaste pela minha infância: sempre que falo de mim encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar, envergonhado, a colocar os copos, os pratos e os talheres na mesa do almoço, enquanto a tua tia tosse na despensa e o teu pai roda os botões do televisor em busca das estridências da novela. E todavia, Iolanda, logo que adormeces, mal o teu rosto, amolgado na almofada, readquire a inocência do presépio de outrora, tal como te vi, pela primeira vez, na pastelaria à esquina do Liceu, quando os teus dedos sujos de tinta e os teus cadernos escolares me comoveram de uma alegria sem sentido.

logo que adormeces e uma brancura de olmo compássaros nos atravessa o quarto, arengo sem que me troces, converso, pairando sobre ti, com as tuas palmas inertes e as tuas coxas indefesas, e a casa onde morei antes da família da minha mãe surge da noite, nascida de uma imperfeição do espelho ou da gaveta da cómoda em que a nossa roupa se mistura com ninhos de traças e maçanetas de cobre, desde que há meses me ordenaste Vem e eu me apresentei, com o guarda-chuva e duas malas gastas, neste andarzinho da Quinta do Jacinto, em Alcântara, para explicar que sim, que tinha mais trinta e um anos do que tu mas o emprego do Estado, Senhor Oliveira, não é mau de todo, e claro que pagaria a electricidade, a renda e a despesa do talho.

Meu amor, ouve. Talvez me compreendas no teu sonho, talvez o teu corpo se liberte da ironia a meu respeito e me queira, talvez as tuas pálpebras, agora doces, estremeçam se disser como gostaria que mexesses e me deixasses mexer-te, talvez encostes a mim o tufo de pêlos do teu ventre, e os joelhos se abram devagar sobre uma húmida, lisa, tenra maciez de gruta que aprisiona o meu desejo numa firmeza de nácar. Mas desde o verão que me ignoras, apaixonada por um colega de turma de acne aceso e barba a despontar, que nos visita a pretexto de dúvidas de Geografia ou Matemática e me aperta as falanges, até estalar os ossos, num cumprimento cruel. Reduzido a um vago parente de colete, gravata e farripas grisalhas, incapaz de um pino, incapaz de ler sem óculos, incapaz de correr vinte metros por causa das hesitações do coração, incapaz, em suma, de competir com aquele miúdo borbulhoso, maior do que eu, sem barriga, sem calvície, sem placa, cujos dezoito anos me derrotam, aguardo a noite, numa imobilidade de tarântula, quando o teu corpo, temperado pelo azeite e pelo vinagre do dentífrico e do perfume barato, encolhe a fim de se ajeitar no colchão, quando a cadência do peito se torna sigilosa como a dos barcos, quando os teus lábios, afunilados pelo amuo do sono, sopram um beijo que se me não destina, aguardo a noite, medindo a densidade das trevas pela insónia do teu pai e a bronquite da tua tia do outro lado do tabique, e recomeço a minha história no episódio em que a deixei, regressando, Iolanda, à casa onde vivi antes de conhecer a família da minha mãe, com os seus mil corredores, os seus mil esconsos, os seus mil esconderijos, a casa, a casa,

a casa, meu Deus, cercada de grazinas sobre a falésia e os vapores do oceano, de portadas batidas pelo vento e cortinas em pedaços, com o anúncio Hotel Central em semicírculo na fachada e os três polícias secretos, sempre de negro, de braço erguido na saudação nazi, que bebiam, na salinha de estar, a cevada da manhã.

É então que me lembro dos equinócios que transviavam as arvéolas poisadas na cristaleira, nos enfeites do corrimão e no torpor das sinusites, e no temporal a varrer o larguinho em frente da pensão, com um antiquário às escuras e vitrinas de leques espanhóis e de budas remendados, é então que me lembro da garagem do mecânico albino que consertava os automóveis no verão, arrastando-se para a barriga dos motores. Os mochos, Iolanda, esmagavam-se no postigo do meu cubículo, pegado ao compartimento da cozinheira com uma retrete ao pé da cama e a vazante sempre a ferver no ralo, e a lotação do hotel éramos nós os dois mais a minha madrinha e os três polícias secretos, embora, quando chegava Julho, limpassem a praia de detritos, um calor amargo viesse tranquilizar as ondas, e de imediato a cozinheira e a velhota se revezassem no vestíbulo, de crochet no colo, na ilusão de que um táxi milagroso desembarcasse um grupo de americanas transidas, derrotadas pela angústia dos pinheiros e as molas dos estofos.

Se penso, meu amor, na vilazinha da meia dúzia de chalés tombados, sem proprietário, onde as aranhas fiavam o abandono, em equilíbrio sobre as ravinas e o grito das aves, e a comparo com este apartamento de Alcântara junto à passagem de nível do comboio e aos navios do Tejo que nos roçam as fronhas coroados de delfins, as minhas pernas procuram, sem que me dê conta, o côncavo dos teus joelhos, e comprimo o peito contra as tuas costas numa súplica de protecção que me confunde por me parecer ridículo um homem de quarenta e nove anos em busca de auxílio numa rapariguinha de dezoito ocupada a sonhar com arcanjos de motorizada vestidos de blusão de cabedal, acelerando, para a salvar, do velhote inofensivo que sou, atarantado de timidez e de surpresa. E contudo, Iolanda, não julgues que a minha vida numa aldeola da região da Ericeira em que os eucaliptos gotejavam as lágrimas de um desgosto sem cura não era agradável: era agradável. Quando a ciática não a afligia, descarnando-a de sofrimento no colchão, a cozinheira jogava às cartas comigo no quarto da caldeira avariada, enquanto os polícias secretos estremeciam o soalho sobre as nossas cabeças, a combinarem torturas e prisões. Em certas madrugadas de outono o mar e o vento amansavam e distinguia-se uma língua de areia logo povoada de toldos, de cabazes de comida, de pirâmides de chinelos e de famílias em roupão. Mimosas brotavam dos penedos e nos chalés flutuavam as candeias dos habitantes de outrora, até que uma camioneta de carreira arrebanhava os veraneantes que seguiam a chocalhar para Lisboa, à medida que as vagas engoliam a praia, o céu se cerrava em nuvens de tempestade com arestas de gaivotas gritando pelas rochas, as copas das árvores libertavam cardumes de pintarroxos dementes, e a minha madrinha, indiferente à tempestade, pegava na agulha de crochet e sonhava com americanas extravagantes, vestidas de sandálias e panamá como para uma expedição aos trópicos.

Um comboio abriu a noite perpendicular aos candeeiros da Avenida de Ceuta e paralelo ao rio bordado de armazéns, de pontões, de gruas, de guindastes, de contentores e de veículos de carga, a aguardarem a lúcia-lima da aurora e os operários que caminhavam no sentido do Tejo, custosos de distinguir na hesitação do sol.

O comboio, meu amor, deslocou-se rumo ao Estoril e a Cascais (do sítio onde moramos lobrigo na distância vilas que seguram nos dedos albatrozes e paquetes) e o nosso andar da Quinta do Jacinto vibrou como se um remoinho de bielas o fendesse de golpe, sacudindo nas prateleiras os ursos de barro e os elefantes de vidro, os palhaços de pano e o Wagner cromado, e fazendo cair, da cómoda para o chão, a caixita esmaltada em que guardas os anéis, as pulseiras, e os brincos de prata fingida que te dou no Natal, se me sobeja algum dinheiro do subsídio do Estado. O comboio deslocou-se para o Estoril enquanto retiniam campainhas e ampolas se acendiam e apagavam, desarrumou os prédios de Alcântara e tu rodaste no teu sono, sem deixar de dormir, até te voltares para mim num gemido infantil. Os tornozelos apertaram-se nos meus, e sem cessar de falar a minha boca aproximou-se traiçoeiramente, furtivamente, cautelosamente da tua: cheirava-te o hálito, cheirava-te o cabelo, cheirava-te o pescoço, cheirava as pregas da cintura, as pregas da barriga, e ia acariciar-te o púbis, sentir a textura de que és feita, quando o gato, assustado pelo frenesim do meu júbilo, pulou da colcha enovelando-se num candeeiro cujo quebra-luz se desfez aclarando por um segundo a mobília do quarto. E de pronto os teus cotovelos se agitaram, o corpo desviou-se rolando as ancas e as espáduas que se desprendiam das alças, e fiquei sozinho a salivar desgostos, embalado pelas carruagens que galopavam para os esgotos, as praias e os barquitos da Linha, embalado, meu amor, pelas vagas do rio, a segurar nas mãos, numa atitude de prece, a ausência de uma nádega.

[…]

4 comentários:

o alquimista disse...

Olá querida amiga, se não te importas hoje serás a minha leitura de fim de serão...irtei ler o teu texto e deliciar-me com ele...


Doce beijo

por uma lágrima disse...

Uma ovação de palmas...
A minha abelhinha regressou cheia de garra...
És uma trovoada de emoções, Carocha... e eu já servi de pára-raios :)...
Sabes que não estás só?
Sabes o quanto gostamos de ti?
Quanto ao texto, já conhecia.
Para ti todos os beijos do mundo (sem lágrimas)

DE-PROPOSITO disse...

Olá.
é interessante que também ainda não li nenhum livro dele. Uns excertos aqui, outros ali, e não tenho passado disso.
Fica bem.
Um beijinho para ti.
Manuel

Maria Papoila disse...

Li ontem na revista "Visão" a última crónica de António Lobo Antunes.
Descreve a sala de espera da radioterapia. Profundo e impressionante.
O melhor é que ele dá a notícia: está safo. Mais duas sessões e a doença será vencida.